sábado, 28 de agosto de 2010

Carta às irmãs e aos irmãos não-indios, para todas as gerações, sobre a mudança climática

Carta às irmãs e aos irmãos não-índios, para todas as gerações, sobre a mudança climática

Meus amigos, chega de fazer poluição e desmatar a floresta. Não destruam mais as árvores, a natureza, porque são elas que protegem a terra e armazenam a água. Se forem destruídas não haverá mais água. Nós podemos desaparecer por falta de água, por isso, por favor, parem de poluir o ar, a atmosfera que não agüenta mais tanta poluição. Também nós podemos desaparecer sob essa seca, podemos até ser castigados sobre o fogo com nossas atitudes. Além disso, parece que quanto mais poluição mais doenças diferentes surgem. Vamos parar com essas indústrias que só geram calor e seca; vamos parar para que possamos nos refrescar um pouco mais. Quando não existia indígenas aqui, não havia tanta doença nem tanto calor (quentura).
Meus irmãos, meus amigos, nós indígenas não poluímos a atmosfera nem poluímos a natureza. Nós indígenas vivemos sem nenhuma indústria, por quê vocês não-indígenas não podem viver? Sinto que vocês também podem viver como nós, sem poluição e destruição. Nós indígenas podemos não conhecer muito de livros [ciência], mas sabemos respeitar a natureza, não poluímos ou destruímos a mata irresponsavelmente. Fazemos isso porque reconhecemos que as árvores também tem vida, como a gente. Não poluímos o ar porque reconhecemos que o ar é nosso ar, precisamos dele para respirar, para continuarmos vivos. Se poluirmos o ar, pegaremos doença que nós mesmos criamos, por poluirmos o ar. Nós indígenas precisamos do ar, por isso o respeitamos.
Meus amigos não-indígenas, se vocês não sabem que precisamos do ar para sobreviver agora saberão. Vocês são homens da ciência e de leis, mas não aprendiam o respeito pelo ar e pela natureza. Se vocês não conhecem nada sobre a natureza e o sobrenatural, poderão conhecer agora conosco. Meus amigos, eu sou índio e fico refletindo: os não-indígenas são muito inteligentes, mas parece que não conhecer nada. Pois eu sou índio e reconheço a natureza, o ar, a atmosfera, os rios, a mata.
Manoel Daora Kanamari, Itamarati-AM


Depoimento escrito no dia 25 de maio de 2009 na aldeia Irmãos Unidos no rio Xeruã (município de Itamarati-AM), do professor Manoel Daora Kanamari depois de um curso sobre Mudanças Climáticas e Manejo de Lagos, realizado pelo COMIN de Carauari-AM no rio Xeruã. Professores foram Nelson Lacerda, ex secretário de meio ambiente e Walter Sass do COMIN de Carauari.



Novo hamburgo, 27/8/2010
franccarolo@bol.com.br

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